segunda-feira, 25 de fevereiro de 2008

..., é coisa pra se guardar


Como se dá a alguém um pedaço de céu?

No fim de fevereiro, ela parou na Rua Munique e observou uma nuvem gigantesca aproximar-se por sobre as colinas, como um monstro branco. Escalou as montanhas. O sol foi eclipsado e, em lugar dele, uma fera branca de coração cinzento vigiou a cidade.

— Olha só para aquilo! — disse ela ao pai.

Hans inclinou a cabeça e declarou o que lhe pareceu óbvio.

— Você devia dá-la ao Max, Liesel. Veja se consegue deixá-la na mesa de cabeceira, como todas as outras coisas.

Liesel o fitou como se ele houvesse enlouquecido. — Mas como?

Ele lhe deu um piparote de leve na cabeça. — Decore-a. Depois, escreva-a para ele.

— ...parecia uma grande fera branca —disse a menina, em sua vigília seguinte junto ao leito — e veio por cima das montanhas.

Quando a frase foi concluída, com vários ajustes e acréscimos diferentes, Liesel achou que havia conseguido. Imaginou a visão da nuvem passando de sua mão para ele, através dos cobertores, e a escreveu num pedaço de papel, colocando a pedrinha em cima.


[do livro "A menina que roubava livros"]





, desde que você foi embora ficou um vazio que ninguém jamais foi capaz de preencher. Ficou ainda a sensação de que com você, foi-se também um pedaço de mim: o pedaço mais insano, mais debochado, mais porra-loca, mais festeiro e alegre. Foi-se as macaquices no metrô, a idolatria por um ídolo, o jeito fácil de aprender a música no ônibus e o tica tica boom da Ivete na sala de casa... Se é verdade que o tempo não volta, também deveria ser verdade que as pessoas não se perdem.
[S.Botelho]








"No dia em que eu conseguir uma forma tão
pobre quanto eu o sou por dentro,
em vez de carta,
você receberá uma caixinha
cheia de pó de Clarice."

[
Clarice Lispector]





"É pena que não possa dar
o que se sente ,
porque eu gostaria de
dar a vocês o que sinto
como uma flor."

[Clarice Lispector]






— O que é que estamos fazendo aqui? — indaguei ofegante, com o estômago se revirando de enjôo.

— Sente comigo, Amir agha — disse ele sorrindo.


Na verdade, me deixei cair ao seu lado e me estiquei em um pedacinho de chão coberto de neve, quase sem fôlego.

— Estamos perdendo tempo. Não viu que a pipa está indo para o outro lado?
Hassan trincou uma amora.


— Está vindo para cá — respondeu.
Eu mal podia respirar, e ele nem parecia cansado.


— Como pode saber? — perguntei.
— Eu sei.
— Como?


Ele se virou para mim. Algumas gotinhas de suor escorriam de sua cabeça raspada.

— Já menti para você, Amir agha?
De repente, resolvi implicar com ele. — Sei lá— respondi.
— Já? Mil vezes comer cocô! — exclamou ele com ar indignado.
— De verdade? Você faria isso?
Ele me lançou um olhar desconcertado.
— Faria o quê?
— Comer cocô, se eu mandasse — respondi. Sabia que estava sendo cruel, como naquelas vezes em que debochava dele quando não conhecia uma palavra qualquer. Mas havia algo de fascinante, embora de um jeito doentio, em implicar com Hassan. Era um pouco como brincar de torturar insetos. Só que, agora, ele era a formiga e eu é que estava segurando a lupa.

Ele ficou me encarando por um bom momento. Estávamos sentados ali, dois meninos debaixo de uma cerejeira, e, de repente, nos olhávamos, olhávamos de verdade.


Se você mandasse, faria, sim — disse ele afinal, olhando bem para o meu rosto.


Baixei os olhos. Foi aí que descobri como é difícil olhar diretamente nos olhos das pessoas como Hassan, essas pessoas que dizem sinceramente o que pensam.Mas fico imaginando... — acrescentou ele. — Será que algum dia você me mandaria fazer uma coisa dessas, Amir agha?

E, com isso, Hassan me propôs um pequeno teste. Se eu ia provocá-lo, desafiando a sua lealdade, ele ia fazer o mesmo, pondo à prova a minha integridade.



Adoraria não ter começado aquela conversa. Dei um sorriso forçado.

— Não seja idiota, Hassan. Você sabe muito bem que eu não faria isso!
Ele também sorriu. Só que o dele não parecia forçado.
— Eu sei — disse.

E esse é o problema das pessoas que são sinceras: acham que todo mundo também é.


[do livro "O Caçador de Pipas"]

2 comentários:

Anônimo disse...

— Se você mandasse, faria, sim — disse ele afinal, olhando bem para o meu rosto.

nunca vou esquecer essa frase....o filme tb tá lindo...assistiu?

beijinhos,

Simplesmente Marie


Simplesmente Marie

Maria Fernanda disse...

"E esse é o problema das pessoas que são sinceras:acham que todo mundo também é."

Exatamente isto!

Grande beijo do tamanho da distância.