sábado, 29 de março de 2008

| As cores |


Aí comecei a perceber que nada mais tinha cor. Eu não sabia de onde vinha aquilo, se das coisas ou de meus olhos. Tudo era cinza e sem vida, sorrisos abraços e corações. Eu queria entender, precisava entender, mas tudo em mim era nada e esse nada fazia com que todo o resto não existisse nunca mais. Procurei vermelhos amarelos e branco, encontrei apenas um silêncio que me rasgava aos poucos.

[S.Botelho]




As pessoas só observam as cores do dia no começo
e no fim, mas, para mim, está muito claro
que o dia se funde através de uma multidão de
matizes e entonações, a cada momento que passa.
Uma só hora pode consistir em milhares de cores diferentes.

[do livro "A menina que roubava livros"]




Há uma multidão de histórias
(um mero punhado, como sugeri antes)
que permito que me distraiam enquanto trabalho,
assim como as cores.
Eu as apanho nos lugares mais azarados,
mais improváveis,
e me certifico de recordá-las enquanto
executo meu trabalho.
A Menina que Roubava Livros é uma dessas histórias.

[do livro "A menina que roubava livros"]




As coisas têm peso, massa, volume, tamanho,
tempo, forma, cor, posição, textura,
duração, densidade, cheiro, valor,
consistência, profundidade, contorno, temperatura,
função, aparência, preço,
destino, idade, sentido.
As coisas não têm paz.

[Arnaldo Antunes]




Eu ando pelo mundo prestando atenção

em cores que eu não sei o nome

Cores de Almodóvar

Cores de Frida Kahlo, cores.

[Adriana Calcanhotto]

Quisera eu ser a primavera

a boa-nova

os sabores da vida

dentro da sua tijela colorida

de tons incomuns

e colorir um a um

os seus momentos nus.

[Zélia Duncan/Lulu Santos]


Papai se espreguiçou, com os punhos cerrados e os olhos arranhando para fechar, e a manhã não se atreveu a ser chuvosa.


Os dois se puseram de pé, andaram até a cozinha e, através da neblina e dos cristais de gelo na janela, puderam ver as faixas róseas de luz sobre as camadas de neve nos telhados da Rua Himmel.


Veja as cores — disse o pai. É difícil não gostar de um homem que não apenas nota as cores, mas fala delas.

[do livro "A Menina que roubava livros"]

3 comentários:

Maria Fernanda disse...

Como sempre vc escolhe muito bem os textos que coloca aqui...são seus momentos, eu sei...sua intensão de exteriorizar o que está dentro!
Sou fã do blog, sou sua fã!
Grande beijo!

Anônimo disse...

Muito legal! Já gostei do primeiro post que li. Só acho que as cores estão aí, precisamos abrir os olhos para elas. Um beijo azul, amarelo, violeta, laranja, branco e anil para vc!
Leticia

Anônimo disse...

Cd a atualização desse espaço? Sinto fome das suas palavras e expressões escolhidas a dedo.
Saudades eternas e sempre presentes.
Bjos minha flor!!!!

Dani.... :)